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Página específica para a 3ª edição do curso de especialização em Gestão Pública e Sociedade:
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quarta-feira, 23 de março de 2011

Lançamento Livro: Trabalho Educação e Reprodução Social

Convidamos todos vocês para participar da sessão de lançamento do livro:


Trabalho, educação e reprodução social: As contradições do capital no século XXI, organizado pelos professores Eraldo Batista, vinculado ao grupo de estudos e pesquisas HISTEDBR_GT_Unicamp e Henrique Novaes, professor da UNESP-Marília, Departamento de Administração e Supervisão Escolar (DASE). Os organizadores e os autores dos capítulos farão uma breve exposição do mesmo e após esta atividade, realizaremos o lançamento.


OBS: Os autores e organizadores irão vender o livro mais barato que o valor estipulado pela editora, os interessados, por favor, entrem em contato com os autores.

Abaixo seguem mais informações sobre livro


Dia do lançamento: 24 de Março

Local: Sala da Congregação Faculdade de Educação/ Unicamp

Horas: 16:30 horas


Abraços,

Eraldo Batista, Henrique Novaes e demais autores




ARTIGOS E AUTORES


A reestruturação produtiva e a nova ideologia da educação profissional:

adaptação e competências

Roberto Leme Batista


Mundialização do capital e as novas formas de imbricação entre as

dimensões financeira e produtiva

Lívia de Cássia Godoi Moraes


A concepção de educação na obra de István Mészáros

Caio Antunes


Notas sobre direito autoral, desenvolvimento tecnológico e precarização

do trabalho

Arakin Queiroz Monteiro


Experimentação/autogestionária: autogestão da pedagogia/pedagogia

da autogestão

Cláudio Nascimento


A autogestão como magnífica escola: notas sobre educação no trabalho

associado

Henrique T. Novaes


A educação no contexto da economia solidária: problemáticas para uma práxis emancipatória

Édi Augusto Benini, Elcio Gustavo Benini e Juliana Chioca Ipolito


Educação, trabalho e autogestão: limites e possibilidades da economia

solidária

Ioli G. Wirth, Laís Fraga e Henrique T. Novaes


Reflexões para um debate sobre a orientação da rede dos institutos

federais de educação, ciência e tecnologia

Renato Dagnino, Núbia Moura Ribeiro e Alex Cypriano


A educação profissional no Brasil: algumas notas sobre os anos 1930 e

1940

Eraldo Leme Batista, Helica Silva Carmo Gomes


A relação “educação e trabalho” no pensamento pedagógico dos

empresários brasileiros em fase de neoliberalismo

Elisabete Gonçalves de Souza


Movimentos sociais, trabalho associado e educação: reformas e rupturas

Neusa Maria Dal Ri e Candido Giraldez Vieitez


Educação no movimento dos trabalhadores rurais Sem Terra: formação

em agroecologia no MST/PR

Aparecida do Carmo Lima e Amélia Kimiko Noma


Notas sobre a educação popular e a questão agrária na revolução

burguesa no Brasil

Fabiana de Cássia Rodrigues


A mão e o sinete notas introdutórias à questão do controle social na UFFS

Paulo Alves de Lima Filho


Rede de Estudos do Trabalho



RESUMO DO LIVRO:

O livro-coletânea “Trabalho, Educação

e Reprodução Social – As contradições

do capital no século XXI”, organizado

por Eraldo Batista e Henrique Novaes,

é um precioso convite à reflexão crítica

num cenário de barbárie social e impasses

históricos da civilização do capital. É um

painel privilegiado de problemáticas do

trabalho nos primórdios do século XXI

tratadas a partir da particularidade brasileira.

O livro trata de temas candentes

como Trabalho, Educação e Mundialização

do capital, Trabalho Associado e Educação

no Brasil, Trabalho e Educação profissional

no Brasil e Trabalho, Educação

e Movimentos sociais no Brasil. Enfim,

a temática da educação percorre todos os

textos desta interessante coletânea.

Por que o tema da formação humana

– ou educação no sentido pleno da palavra

– é o tema mais crucial do século XXI?

Primeiro, porque o ato de fazer história

implica sujeitos humanos conscientes

capazes de transformar as condições

materiais de produção da vida, por meio

de intervenções radicais no plano da democratização

da vida cotidiana. Enfim,

a questão que se coloca hoje sob o tempo

histórico do “capitalismo manipulatório”

(Lukács) é como deter a máquina industrial

e política de desmonte de sujeitos humanos

montada pela ordem do capital.

(...)

Segundo, formar sujeitos humanos

capazes de escolhas radicais é um ato subversivo

na ordem burguesa. Na medida em

que escolas, movimentos sociais, partidos e

sindicatos com compromisso histórico radical

conseguirem elaborar metodologias

pedagógicas capazes de ir além da mera

reprodução instrumental dos elementos

da ordem capitalista, eles se colocarão

num campo precioso da subversão cultural

contra a ordem “imbecilizante” do capital.

A prática revolucionária hoje é acima

de tudo, uma práticaintelectual-moral, ou

melhor, uma intervenção prático-cultural

de natureza radical e criadora capazes de

formar sujeitos-produtores de uma consciência

crítica do mundo burguês.

(...)

Finalmente, com a constituição do

“capitalismo manipulatório”, que tornouse

hoje um sistema mundial organizado

pela oligarquia industrial-financeira, que

controla os aparatos de “formação de

opinião pública”, sob o controle do capital

concentrado dos grandes grupos da

indústria cultural, o problema da formação

humana tornou-se o problema crucial

do nosso tempo histórico. Manipula-se

mais hoje do que nunca, tendo em vista

que, não interessa ao sistema de controle

estranhado do capital em escala global, a

dissidência intelectual-moral. Na medida

em que se agudizam as contradições orgânicas

da ordem mundial do capital em

sua etapa de crise estrutural, ampliam-se

e intensificam-se formas de manipulação

que deformam os sujeitos humanos. Na

verdade, impede-se a formação humana

no sentido de homens e mulheres capazes

de consciência crítica e, principalmente,

consciência de classe.

Sob a crise estrutural do capital, disseminam-

se novos modos de estranhamento

social que assumem formas fetichizadas.

Mais do que nunca, a percepção da realidade

histórica é prejudicada pelo fetichismo

social que impregna a ordem burguesa.

Fetichismo quer dizer intransparência e

ocultação da natureza essencial das coisas.

O que significa que hoje, a intensificação

da manipulação decorre do incremento

do fetichismo social, onde o fetichismo da

mercadoria é sua forma mais simples.

(...)


sexta-feira, 18 de março de 2011

A RIQUEZA PRODUZ A POBREZA E DELA SE ALIMENTA

Para o burguês Cecil Rhodes a expansão do Império Britânico era crucial e se fosse possível deveria anexar os planetas. Afirmava que para salvar os 40 milhões de habitantes do Reino Unido de uma mortífera guerra civil o Império deveria apoderar-se de novos territórios para “exportar” a população miserável que sobrava. E assim, de 1850 até a Primeira Guerra Mundial, 40 milhões de miseráveis foram “exportados” da Europa para outras terras, o que equivaleu mais de ¼ da força de trabalho, enorme excedente humano. Hoje esta solução não é mais possível. Os 57% dos trabalhadores miseráveis da América Latina, os 40% da Ásia e os 60% da África já não são necessários à exploração capitalista, o sistema econômico não é capaz de absorver essa grandeza de indigentes (Davis, M. 2006). Para Z. Bauman esses miseráveis são, para o capital, imprestáveis “entulhos humanos”. Segundo a Organização Internacional do Trabalho a última crise mundial adicionará 50 milhões de seres humanos aos 190 milhões de desempregados existentes. Não há política compensatória {Bolsa-Família} que atenda essa enorme quantidade de miseráveis do mundo. Há quem acredite que as causas da crise do capitalismo estão diretamente relacionadas ao mau caráter dos governantes e dos parlamentares, isto é, ficam na superfície do problema. São muitos os “moralistas generosos” que apoiaram, com fervor, à Ditadura Militar de 1964. É óbvio que os governantes são apenas burocratas subordinados aos interesses econômicos dos capitalistas locais e mundiais. Os burocratas podem ser “generosos” gestores da miséria proletária por meio de políticas compensatórias, mas as raízes estruturais da miséria permanecem intocadas. As mazelas do capitalismo são inerentes à sua natureza destruidora. A causa fundamental das mazelas deriva da sua própria dinâmica, ou seja, a produção da riqueza social é coletiva, mas a apropriação dos frutos do trabalho humano é privada. O Brasil é exemplar na produção de desigualdades sociais, pois 45% de toda riqueza e da renda estão concentradas nas mãos de apenas cinco mil famílias e 31,09% de pessoas, com 10 anos ou mais de idade, não possuem rendimentos (PNAD, 2009). A especulação financeira é uma qualidade do sistema, não podemos esquecer os superlucros e os juros/agiotas que sugam o suor da classe trabalhadora. Repito: o Brasil, infelizmente, pagou de juros/agiotas 380 bilhões de reais, o que correspondeu a 36% de todo Orçamento da União e foram destinados apenas 4,8% para saúde e 2,8% para educação (2009). Há quem acredite que D. Rousseff cortou R$50 bilhões para pagar juros/agiotas por ser uma senhora malvada. O príncipe Fernando Henrique e o ex-operário Lula não estancaram essa criminosa sangria da classe trabalhadora. D. Rousseff e o seu aliado J. Sarney não estancarão e muito menos um futuro presidente tucano também subordinado aos interesses do poder econômico. Quem estancará?


felipeluizgomes@terra.com.br


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A VIOLÊNCIA DA POBREZA SERÁ ERRADICADA?


Racismo e classe social


Dizia Celso Furtado no seu livro “Projeto para o Brasil”, para a maioria da população se apropriar dos frutos das inovações tecnológicas era preciso atacar histórica deformação estrutural. Ele colocou em pauta o problema do controle do sistema de decisões – poder político - e de sua necessária legitimação em termos de interesse social (1969). A presidente D. Rousseff prometeu erradicar a miséria e reduzir a pobreza. Afirma o pesquisador Sílvio C. Bava: se a linha da pobreza escolhida pelo governo for à estabelecida pelo Banco Mundial (US$ 2/dia) o custo do programa será de R$ 21 bilhões e, ninguém deixará de ser, de fato, pobre. Hoje os gastos com os pobres são apenas 0,4% do Produto Interno Bruto. Sendo o Brasil um dos países com maior desigualdade social do mundo a adoção de novos impostos sobre as heranças e a propriedade, assim como uma maior progressividade na taxação da renda e dos fluxos do capital, são políticas que podem oferecer os recursos necessários para a reforma tributária. Essas políticas existem nos países socialmente avançados. Sílvio lembra que durante a Crise de 1929, nos EUA, Roosevelt, para atacar os problemas sociais gerados pelo capitalismo real, elevou a alíquota superior do imposto de renda para 90% e a burguesia “aceitou o sacrifício”. Não é mais possível que 45% de toda riqueza e renda nacionais no Brasil estejam concentradas mãos de apenas cinco mil famílias e os impostos sobre patrimônio representem só 3,4% do total arrecadado pela União, Estados e municípios. A transferência de renda do trabalho para a renda do capital tem como principais instrumentos a injusta política tributária e o pagamento de juros/agiotas da “dívida pública”, o que é uma violência contra o proletariado. De 2000 a 2007, ela foi cerca de 7% da média total da renda nacional e somou R$ 1, 267 trilhão. Enquanto são beneficiadas as 30 mil famílias que concentram 70% dos títulos públicos em suas mãos, os gastos com saúde pública foram de R$ 310, 9 bilhões e com educação R$ 149,9 bilhões (Le Monde Diplomatique Brasil, 02/2011). A Presidente D. Rousseff, com apoio do PT, do Presidente José Sarney e aliados terá força para realizar a distribuição de renda e livrar os “inframiseráveis” da Bolsa Família (A. Sposati)? O aumento da renda per capita, mesmo depois da Bolsa, ainda permanece por volta de R$65,00. Sem reformas estruturais o crescimento acelerado e a Bolsa não resolverão a inframiséria e a pobreza do Brasil. Por que o social-democrata José Serra, quando candidato, prometeu 13 parcelas de Bolsa para os inframiseráveis? Sem alternativas de trabalho digno, mesmo com 13 Bolsas, a inframiséria continuará existindo. Na festejada classe “C” estão 93 milhões com renda per capita de R$14,18/dia, nas “Classes D e E” 67 milhões com R$8,14/dia e a maioria dos 49 milhões de indigentes (CEPAL, 2010) são negros (as) e pardos inframiseráveis.


Felipe Luiz Gomes e Silva

e-mail:felipeluizgomes@terra.com.br


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A dimensão internacional da violação dos Direitos Humanos à alimentação: a miséria da classe trabalhadora, em face da crise estrutural do capital.

Autor: Rogério Fernandes Macedo[1]

A crise estrutural do capital.

Conforme István Mészáros (1989, 2009), o capital, desde suas formas antediluvianas até a década de 1970, descreveu uma trajetória ascendente, universalizante, não obstante a presença das constantes crises cíclicas, com suas oscilações características, com maior ou menor agudez, a depender do momento histórico. Ao longo desses séculos, em meio a tal percurso, o capital se deparou com diversos constrangimentos, frente os quais operou saídas complexas tencionando a ampliação de sua reprodução ampliada em patamar adequado às necessidades das múltiplas burguesias concorrentes e hegemônicas[2]. Por conta desta linha evolutiva, o capital alcançou um ponto, no qual ativou uma série de limites absolutos dinâmicos à sua expansão e acumulação. Estes impelem as burguesias mundiais à criação de alternativas conduzidas pelo critério relativamente rígido da linha de menor resistência[3]. Ao reagir a tais limites absolutos, cuja ativação intensiva e inequívoca se deu ao cabo da década de 1960, o capital aprofunda ainda mais os determinantes desses limites, assim como as atrozes conseqüências oriundas, tanto deles, quanto das estratégias de reação a eles[4]. Por parte de Mészáros (1989, 2009), tal avaliação histórica possibilitou a apreensão teórica de uma nova etapa de desenvolvimento da reprodução social capitalista e que fora denominado por ele crise estrutural do capital[5]. Trata-se de acordo com o autor (1989, 2009), do aprofundamento da impossibilidade histórica da relação capital controlar, respondendo aos seus imperativos sistêmicos internos, a produção e reprodução social humana mediante outros meios históricos que não aqueles inexorável e exclusivamente marcados pela negatividade destrutiva, estruturalmente irreparável, em termos capitalistas. Conseqüentemente, esgota-se aquela fase ascensional do capital; esvaem-se cada vez mais as suas potencialidades civilizatórias; ele está auto-impedido de reproduzir-se proporcionando alguma positividade significativa para a humanidade como um todo. Nota-se que esta crise abarca dimensões amplas, fatalmente perigosas[6], delineando-se como uma crise civilizatória, e não de contingências mercadológicas, sem tempo determinado para acabar e sem promessas de desfecho positivo ou negativo. Tais constatações estimulam as reflexões sobre o campo da luta política circunscrita ao direito e da necessidade de uma avaliação mais apurada das suas potencialidades e limites neste quadro histórico apontado, em face da situação da classe trabalhadora mundial.

Desde seus estudos sobre as formas componentes do exército industrial de reserva, Marx (1985) assinalava a dialética entre produção de riqueza e de miséria sob o sistema de produção do capital[7]. Ali, ele apontou que: “(…) Quanto maiores a riqueza social (…) tanto maior o exército industrial de reserva.” (MARX, 1985. p.209), aumentando assim a superpopulação consolidada e em condições de miséria. A miséria desses trabalhadores se apresenta “(…) em razão inversa do suplício de seu trabalho.” (MARX, 1985, p.209). Em outras palavras, os imperativos do capital imputam a produção de riquezas mediante a miséria ampliada dos seres humanos, subtraindo o elemento que os definem enquanto espécie[8], expondo-os às miserabilidades bárbaras. Cria-se com isso um mecanismo regulador do nível populacional, formando um controle mortuário[9], por assim dizer. Marx (1985) apontará o seguinte: “O mecanismo da produção e acumulação capitalista ajusta constantemente esse número [ou seja, o nível populacional] a essas necessidades de valorização.” (MARX, 1985, p.209). E este ajuste tem duas dimensões mutuamente determinadas: a primeira seria “(…) a criação de uma superpopulação relativa, ou exército industrial de reserva; a última (…), a miséria de camadas sempre crescentes do exército ativo de trabalhadores e o peso morto do pauperismo.” (MARX, 1985, p.209).

Marx (1985) defende ser a miséria uma categoria histórica, imanente e necessária ao processo de universalização da relação social capital. Na crítica à filosofia do direito de Hegel, ele identificou as auto-miserabilidades do processo alemão, tomando como referência as revoluções radicais francesas e inglesas. Alude para a particularidade segunda a qual a “Alemanha acompanhou o desenvolvimento das nações modernas apenas através da atividade abstrata (…), sem tomar parte ativa nas lutas reais deste desenvolvimento (…)” (MARX, 2005, p.153). Ou seja, ela “(…) experimentou (…) as dores deste desenvolvimento sem participar nos seus prazeres e satisfações parciais.” (MARX, 2005, p.153). E a partir desta apreensão prediz a tendência, de que “(…) um belo dia, o alemão encontrar-se-á ao nível da decadência européia, antes de alguma vez ter atingido o nível da emancipação européia.” (MARX, 2005, p.153). O processo alemão compartilha das negatividades capitalistas, sem, contudo, usufruir de suas positividades. Tem ali muito forte a contra-revolução e o conservadorismo, os quais têm sua máxima expressão no nazismo.

No vasto mundo colonial, a particularidade do desenvolvimento capitalista preparou um solo histórico impróprio para o nascimento de uma nação capitalisticamente pujante não havendo ali nenhum usufruto das benesses alguma. Onde o capital terá plena liberdade para se desenvolver, sobrarão apenas miserabilidades multidimensionais. É o próprio Marx (1985) que reconheceu a importância da apreensão do processo histórico nos países de extração colonial, asseverando que se deve “(…) estudar esse assunto em detalhe, para ver o que o burguês faz de si mesmo e do trabalhador onde pode à vontade modelar o mundo segundo sua imagem.” (MARX, 1985, p.286).

Importa teorizar sobre esses determinantes históricos, pois formar-se-ão (LIMA FILHO, 2004) em face desses condicionantes uma série de nações cuja miséria se torna uma dimensão totalizante da sua forma histórica. As relações criadas no vasto Novo Mundo apontam as fronteiras das possibilidades da auto-alienação, da auto-miserabilidade humana distendidas ao máximo, dinamizando a acumulação primitiva mundial do capital. Desta base objetiva, fundada na condução forçada do índio e do negro ao patamar máximo de reificação possível, redundará uma plêiade de sociedades que se reproduzem na barbárie sob condições capitalistas estruturalmente irreversíveis. Esse é o fundamento histórico-concreto da presente miséria, da dependência, da desigualdade nas América Latina e Caribe, na Ásia, na África, no leste europeu.

O que Marx não poderia prever é a dimensão colossal que esta categoria atingiria no século XXI. Sob a determinação da crise estrutural do capital, recai com intensidade inédita sobre a classe trabalhadora todo o fardo das saídas menos resistentes operadas pelo capital, que tenciona manter os patamares de sua acumulação e lucratividade, não importando o quão humanamente indesejável isso seja. A partir dessas pontuações, pode-se expor o seguinte: a categoria miséria sintetiza todas as auto-miserabilidades humanas historicamente determinadas pela auto-alienação do trabalho, realizada esta no interior do processo histórico de universalização da relação social capital como reguladora da produção e reprodução humanas, para a acumulação de riquezas em benefício dos proprietários dos meios significativos de produção, no seio de uma sociedade cindida em classes antagônicas e irreconciliáveis[10]. Como tal, a miséria é uma forma do ser social, cujo conteúdo está atualmente determinado pelo momento particular do capital, que alcança sua forma historicamente mais desenvolvida, sistêmica, totalizante, com a presença de oligopólios privados ou estatais, produtivos ou não, sob regência de gigantescas corporações monopolísticas, dedicadas predominantemente aos dinamismos do capital fictício e a sua ampliação pseudo-redentora. A miséria, em meio a esta totalidade sistêmica do capital, como forma integrante do ser social e tal como se apresenta no atual momento histórico, é uma categoria cujos componentes são econômicos, sociais, políticos, materiais, intelectuais, culturais, educacionais e naturais. Todos vinculados em formas miseráveis, sistematicamente criadas, para a manutenção dos níveis históricos de reprodução ampliada do capital, intrinsecamente irregular e variante; dimensões disparadoras, em sua fase de ascensão, das denominadas crises cíclicas capitalistas, e que culminam nos últimos quarenta anos na crise estrutural do capital[11].

Os capitalismos da miséria e a tragédia da fome.

Como mostrado por Marx (1985), o capital pôde no vasto território colonial desenvolver-se sem constrangimentos, realizando as mais profundas atrocidades contra os trabalhadores. Sob a produção miserável, reproduz-se uma sociedade igualmente assentada na miséria; suas expressões, políticas, sociais, ideológicas e culturais são profundamente estigmatizadas pelo rebaixamento dos trabalhadores ao nível mais abissal de desumanização. Sinteticamente, o nível zero de humanidade[12]. Os países surgidos do ventre colonial possuirão esta marca capitalisticamente indelével[13], em face do que, sua classe trabalhadora padece de toda sorte de afetações próprias às múltiplas dimensões da auto-miserabilidade humana. No seio destes desenvolvimentos históricos, delinear-se-ão o que se denomina aqui Capitalismos da Miséria: países nascidos predominantemente do ventre colonial[14] e que têm na produção e reprodução miseráveis o fundamento da impossibilidade histórica das maiorias trabalhadoras se auto-enriquecer minimamente, bem como de usufruírem dos padrões de relações sociais próprias às repúblicas oriundas das revoluções radicais[15]. Nos capitalismos da miséria estão as multidões ameaçadas pelo espectro da morte: pobreza, fome, doenças, guerras, miséria, todas visceralmente presentes.

A atual expressão da crise estrutural do capital é quase sempre representada por números astronômicos, sobretudo, daqueles referentes à presença redentora do Estado no setor financeiro e produtivo. Mas, ultimamente, o mais aterrorizador deles veio da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação - FAO – que anunciou ter o mundo alcançado a cifra de um bilhão de pessoas sofrendo pelo flagelo da fome[16]. Esta fome referida não se trata, exclusivamente, da sensação que precede o momento de uma refeição e que serve de alerta fisiológico, impelindo os indivíduos a buscarem alimento para suprir suas necessidades nutritivas e energéticas. Trata-se esta fome de uma expressão humana físico-biológica criada no seio da reprodução social regulada pelo capital, bem como acentuada no interior de sua decadência histórica. Estas estatísticas resultam deste longo processo, o qual impeliu uma imensa parcela da classe trabalhadora mundial à miséria. É preciso dizer que a tragédia da fome é apenas uma dimensão da categoria miséria, como bárbara e evidente necessidade imperiosa do sistema produtivo, que reserva à classe trabalhadora possibilidades deveras limitadas de auto-enriquecimento e libertação significativos e abrangentes, alcançados pela luta circunscrita ao campo do direito. Não resulta desta avaliação a defesa do completo abandono dos enfretamentos ali travados, sejam para maiores conquistas, sejam para resistir ao retrocesso irracionalista tentado “democraticamente”[17] e diuturnamente pelas burguesias frente aos direitos historicamente conquistados.

Em face do que foi dito até aqui, é possível averiguar uma tendência ao aumento de todo esse drama, cuja fome é expressão mais atroz. Desde os últimos quarenta anos, as variadas burguesias recorreram intensamente, como resposta à sua crise estrutural,[18] à ampliação do capital fictício, do qual o dinamismo cria um distanciamento relativo frente à base produtiva, de onde surgiu. Simultaneamente, a crise estrutural impõe à humanidade suas pressões sísmicas, que força a redução da massa desse capital fictício, acomodando-a a base produtiva. São essas ocorrências que afetam profusamente a classe trabalhadora, pois é sobre a exploração de sua força de trabalho que as burguesias mundiais conseguem manter a estrutura de comando nas condições aludidas anteriormente[19]. Isso funda aquela tendência ao aumento da miséria, pois ela se realiza em proporção direta à reação das burguesias mundiais às manifestações multidimensionais da crise estrutural do capital, não havendo saídas humanamente viáveis desde o interior do sistema. Inegavelmente, esses são limites intransponíveis às proposituras no campo das lutas por diretos formais, mesmo que eles representem necessidades imprescindíveis, tal como de fato o fazem[20].

Este texto tencionou apreender, dentro dos limites de um artigo, o conjunto de determinantes responsáveis pela violação de todos os denominados direitos humanos (NAÇÕES UNIDAS, 2010), no quadro da crise estrutural do capital. Reforça-se, portanto, a idéia da imprescindibilidade de se teorizar sobre os limites absolutos da luta circunscrita ao campo do direito. De acordo com Mészáros (2009), é preciso lutar pela igualdade substantiva, economicamente viável e humanamente necessária na perspectiva da superação do sistema de produção do capital como um todo, a saber, a edificação da “(…) sociedade de indivíduos livremente associados (…), redefinindo ao mesmo tempo sua relação com o tempo e com o tipo de uso a que servem os produtos do trabalho humano.” (MÉSZÁROS, 2007, grifo do autor, p.256). Assim, a humanidade deixaria sua pré-história, podendo experimentar uma experiência distinta desta miserável, em que está envolta.

Bibliografia.

CASTRO, Josué de. Geopolítica da fome: ensaio sobre os problemas de alimentação e de população do mundo. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, livro II e III, 1965. V.1 e V.2. 485p. (Obras escolhidas).

El PAIS. Los sindicatos sacan más gente que nunca a las calles contra la reforma de las pensiones. Disponível em: http://www.elpais.com/articulo/internacional/sindicatos/sacan/gente/calles/reforma/pensiones/elpepuint/20101012elpepuint_4/Tes. Acesso em: 12 de outubro de 2010.

ENGELS, Friedrich. A situação da Classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Global, 1985, 391p. (coleção bases).

HOBSBAWN, Eric, J. A Era das Revoluções: 1789 – 1848. 6.ed. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1998.

HOBSBAWN, Eric, J. A Era do Capital: 1848 – 1875. 4.ed. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1988.

LIMA FILHO, Paulo Alves. O golpe de 1964: a vitória e a vitória da ditadura. São Paulo, 2004. 15 p.

LIMA FILHO. Paulo Alves de. Nuvens negras sobre a república: o paraíso em trevas. Desafios à emancipação no Brasil. In: VII Congreso argentino chileno de estudios historicos e integración cultural. Salta: Editorial de la Universidad Nacional de Salta - EUNSa, 25 a 27 de abril de 2007, Republica Argentina, ISBN Nº 978-987-9381-80-9. 21p. Anais... CD-ROM.

MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel – Introdução. In: ______. Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 145-156.

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Nova Cultural, 1988.

MÉSZÁROS, István. O século XXI - socialismo ou barbárie? São Paulo: Boitempo, 2003. 116p.

MÉSZÁROS, István. Para além do capital. São Paulo: Boitempo: 2009. 1102p.

MÉSZÁROS, István. Produção destrutiva e Estado capitalista. São Paulo: Ensaio, 1989. V.05. (Cadernos Ensaio. Pequeno formato).105p.

MÉSZÁROS, István. Teoria da alienação em Marx. São Paulo: Boitempo, 2006. 296p.

NAÇÕES UNIDAS. Declaração dos Direitos Humanos. Disponível em: http://www.onu-brasil.org.br/documentos_direitoshumanos.php Acesso em: 09-10-2010.

PINASSI, Maria Orlanda. A ideologia da crise e o surto incontrolável da irrazão. In: ARRUDA SAMPAIO JÚNIOR, Plínio de (Org.). Capitalismo em crise: a natureza e dinâmica da crise econômica mundial. São Paulo: Editora Instituto José Luís e Rosa Sundermann, 2009b. p. 75-96.

PINASSI, Maria Orlanda. Da miséria ideológica à crise do capital - uma reconciliação histórica. São Paulo: Boitempo, 2009a. (Coleção Mundo do trabalho). 144p.

POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens de nossa época. Rio de Janeiro: Campus, 1980. 349p.

SODRÉ, Nelson Werneck. Formação Histórica do Brasil. 5.ed. São Paulo: Brasiliense, 1968. 415p.



[1] Professor do Curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri - UFVJM. Doutorando em Sociologia na Faculdade de Ciências e Letras de Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Pesquisador do Grupo Trabalho, Movimentos Sociais e Sociabilidade Contemporânea e do Instituto Brasileiro de Estudos Contemporâneos - IBEC.

[2] Dentre essas saídas, ver importante discussão em: MÉSZÁROS, István. A Taxa de uso decrescente no capitalismo. In: ______. Produção destrutiva e Estado capitalista. São Paulo: Ensaio, 1989. V.05. (Cadernos Ensaio. Pequeno formato). p.15-51.

[3] Sobre a linha de menor resistência, ver: MÉSZÁROS, István. A linha de menor resistência do capital. In: ______. Produção destrutiva e Estado capitalista. São Paulo: Ensaio, 1989. V.05. (Cadernos Ensaio. Pequeno formato). p.52-72.

[4] Dentre essas conseqüências, tem-se: “(…) níveis altíssimos de concentração da riqueza material socialmente produzida, de políticas de incentivo ao desemprego crônico, da perda progressiva de direitos trabalhistas, da degradação inigualável das condições de trabalho - entre as quais cresce a ocorrência das relações de escravidão e a proposição pouquíssimo clara de uma nova modalidade de ‘trabalho decente’. Sem mencionar ainda a alarmante destruição do ecossistema. (PINASSI, 2009b, p.76).

[5] Sobre a crise estrutural do capital, ler: MÉSZÁROS, István. Crise estrutural do sistema do capital. In: ______. Para além do capital. Parte 03, São Paulo: Boitempo: 2009. p. 605-980.

[6] MÉSZÁROS, István. O significado do complexo militar-industrial. In: ______. Para além do capital. Parte 03, São Paulo: Boitempo: 2009. p. 685-695.

[7] Ao bem da verdade, tal dialética está presente na obra de Karl Marx, desde seus escritos de juventude. Sobre isso ver: MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004, 176 p.

[8] MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004, 176 p. MÉSZÁROS, István. Teoria da alienação em Marx. São Paulo: Boitempo, 2006. 296p. ANTUNES, Ricardo.

[9] Vale registrar que tal teorização dista das conclusões a que chegou teórico inglês Thomas Robert Malthus (1766-1834). Para uma análise crítica sobre as formulações deste autor, ver: CASTRO, Josué de. Geopolítica da fome: ensaio sobre os problemas de alimentação e de população do mundo. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, livro II e III, 1965. V.1 e V.2. 485p. (Obras escolhidas).

[10] Para estudo mais detalhado sobre a dialética entre produção de riqueza e de miséria no sistema de produção do capital, ler: ENGELS, Friedrich. A situação da Classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Global, 1985, 391p. (coleção bases). HOBSBAWN, Eric, J. A Era das Revoluções: 1789 – 1848. 6.ed. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1998. A Era do Capital: 1848 – 1875. 4.ed. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1988. POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens de nossa época. Rio de Janeiro: Campus, 1980. 349p.

[11] Essa é mais uma evidência da atual imprescindibilidade da apreensão de Marx (1985) no que respeita à dialética entre produção de riqueza e de miséria, sob o sistema de produção do capital.

[12] Sobre isso, apropria-se aqui da seguinte definição: “E foi assim que (…) forjou-se uma sociedade solidamente ancorada no nível zero de humanidade, onde o trabalhador para produzir valores à acumulação privada, dentro e fora da colônia e do império politicamente independente, era despojado de sua condição humana. Reduzido a coisa, coisa de valor, mercadoria, força de trabalho em estado puro, descontaminada das necessidades da espécie animal da qual emana. Esta mercadoria sublimada de humanidade produz-se e reproduz-se em sociedade igualmente desumana, governada por classes dominantes desumadas, fortemente instaladas no nível zero de humanidade, no nível máximo de coisificação das relações sociais, de alienação ao capital.”. (LIMA FILHO, 2007, p.03).

[13] Neles, a produção nunca foi destinada à satisfação significativa das necessidades das maiorias trabalhadoras, mas sim à acumulação predominantemente alhures, determinada pelas necessidades das burguesias imperialistas hegemônicas oriundas dos países de revoluções radicais. Sobre isso, ver: SODRÉ, Nelson Werneck. Formação Histórica do Brasil. 5.ed. São Paulo: Brasiliense, 1968.

[14] Existem exceções que não invalidam a tese, dada a sua larga expressão e presença marcante. Dentre as exceções, pode-se citar a Austrália, de via colonial, mas que conseguiu em sua particularidade fugir à larga expressão da miséria do capital em seu espaço territorial.

[15] Vale o registro que existem regiões cuja categoria miséria se desenvolveu a um nível importante e que surgiram de outro processo histórico, que não este próprio ao novo mundo. A título de exemplo, podem ser citados o oriente médio e o leste europeu.

[16] FAO. 1 020 millones de personas pasan hambre. Roma, 19-06-2009. Disponível em: https://www.fao.org.br/, acesso em: 19/06/2009.

[17] Existem autores que defendem ser a atual democracia obscurantista e fascista. Ver: PINASSI, Maria Orlanda. A ideologia da crise e o surto incontrolável da irrazão. In: ARRUDA SAMPAIO JÚNIOR, Plínio de (Org.). Capitalismo em crise: a natureza e dinâmica da crise econômica mundial. São Paulo: Editora Instituto José Luís e Rosa Sundermann, 2009b. p. 75-96.

[18] As mais recentes manifestações da crise estrutural do capital são denominadas pelos ideólogos do capital, de forma auto-vantajosa, das seguintes formas: “Crise do mercado imobiliário estadunidense”, “Crise da Grécia”, “Crise do oriente médio”, “Crise dos subprime”, “Crise de crédito”, “Crise de liquidez”, entre outras. Todas são conceituações redutoras e fragmentadoras que tentam impedir a apreensão do seu caráter abrangente e universal.

[19] Contra o que a classe trabalhadora luta. Veja as reportagens: El PAIS. Los sindicatos sacan más gente que nunca a las calles contra la reforma de las pensiones. Disponível em: http://www.elpais.com/articulo/internacional/sindicatos/sacan/gente/calles/reforma/pensiones/elpepuint/20101012elpepuint_4/Tes. Acesso em: 12 de outubro de 2010.

[20] Vale observa que nunca foi uma necessidade à acumulação de capital alimentar as maiorias trabalhadoras, do que decorre o sempre presente e exuberante número de famintos em todo o globo. Ou seja, a luta pelo direito humano à vida tem menos que ver com a reforma deste sistema e mais que ver com a sua superação.