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Página específica para a 3ª edição do curso de especialização em Gestão Pública e Sociedade:
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sábado, 28 de novembro de 2009

Pensar na Universidade

Estupidez é obrigar quem passa pela Universidade a aprender uma profissão. Vai-se à Universidade estudar cultura, estudar o mundo.

Darcy Ribeiro



No ensino universitário brasileiro é corrente a idéia de que sua função primordial consiste em preparar sujeitos para mercados. Assim, o modelo reprodutivista fundamenta as práticas pedagógicas gerando o que ouso chamar de “razão acorrentada”.

Parte desse equívoco está na consciência professoral plena do que se conhece por “pedagogia diretiva”, menina dos olhos de uma educação a serviço dos interesses capitalistas. O pensar, portanto, põe, digamos, o capacete da “razão instrumental” acarretando duas conseqüências deletérias: acomodação e falta de imaginação. Consolidando ainda mais o quadro alienante, no dizer de Paulo Nathanael Pereira de Sousa, “(...) a regra geral da docência superior no Brasil traduz-se pela repetição de lições nascidas todas de um saber cediço e estruturado, que não raro se desatualiza e atinge as raias da inutilidade para o educando”.

Muito além de formação técnico-profissional há de estar Universidade digna deste nome. A cultura, o mundo, a vida, são o porquê de sua existência. Nela, a educação para o pensar (e pensar certo) busca argumentações fundamentadas, consciente de que os sentidos contêm aberturas críticas infinitas.

Pensar na Universidade é “imperativo categórico”, só é possível quando cada um se constrói numa perspectiva de autonomia social. Estou com Pedro Demo: “Saber pensar não combina com cidadania tutelada, aquela que nos quer massa de manobra, submissos e ignorantes. Nem combina bem com cidadania assistida, porque aceita apenas a assistência necessária e tem como ideal viver sem assistência. Combina com cidadania emancipada, aquela que sabe o que quer, por que quer e como quer”.

Parafraseando Horkheimer, a denúncia daquilo que hoje chamamos de pensar é o maior serviço que o verdadeiro pensar pode nos prestar. Afinal, a reflexão, a filosofia, não podem fabricar leituras fetichizadas? Quantas vezes não encapotam dominações, preconceitos e barbáries de todo gênero?

Ou nos lancemos resgatando a “razão emancipatória”, derruindo a trindade do mal pensar – eficácia, dominação e posse - ou, irremediavelmente, as fábricas de ignorâncias persistirão. Que nosso pensar, enfim, seja dialético, que suas categorias básicas - totalidade, contradição, mediação, ideologia, práxis -, sejam exercitadas não só para fazermos os silêncios falarem, mas, sobretudo, para que possamos descobrir “inéditos viáveis”.



Ary Carlos Moura Cardoso
Mestre em Literatura pela UnB
Pós-Graduado em Educação (UnB)
Pós-Graduado em Filosofia (UGF)
Professor da UFT

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Barbárie na USP

Enquanto aqui na UFT estamos na iminência de um evento que vai discutir "a crise de civilização" , contando com a presença notável de Edgar Morin, lamentavelmente vemos a truculência avançar sobre a nossa USP, berço de um pensamento autônomo brasileiro, de criação e inovação inclusive de uma "civilização brasileira"... explicitamos nosso repúdio a tal ato de repressão, regressão, covardia e barbárie!


Reproduzimos abaixo texto solicitando apoio de toda a sociedade brasileira e intervenção do Ministério da Educação do Brasil.


Para assinar esta petição, basta acessa o link abaixo:(http://www.petitiononline.com/uspmay09/petition.html).




USP PARA TODOS


To: Ministério da Educação do Brasil

POLICIAIS, CORRUPTOS E FASCISTAS: FORA DA USP !



Mais uma vez a polícia invade e ocupa o Campus da Universidade São Paulo. Mais uma vez o grito da ordem estúpida, acompanhado pelo barulho dos tacões, pelo cassetete mudo e pelo revolver desembainhado, ecoa pelas alamedas da cidade universitária e pelos corredores dos prédios de aulas. Calam-se o trabalho, a educação, a ciência, a arte e a cultura. A palavra está com Sua excelência, a pistola 45 e com sua senhoria, o spray pimenta. E, por detrás destas, com os ratos que há décadas saqueiam o bem coletivo e que se consideram proprietários da USP: pelegos, dedo duros, carreiristas, plagiadores, idiotas, negocistas, fraudadores, aproveitadores, enfim, aqueles que tomam a USP como sua propriedade privada, como um bem particular que usufruem e negociam nos cantos escuros dos gabinetes e das salas de diretorias.



Em 64 o exército e a polícia invadiram a USP para nela matarem a civilização brasileira que havia transformado a universidade num centro de produção de liberdade e riqueza coletivas. O pensamento crítico criador incorporado nas magníficas figuras de Mario Schemberg (Instituto de Física), Cruz e Souza (Filosofia), Samuel Pessoa, Luiz Hildebrando Pereira da Silva e Erney P. de Camargo (medicina-parasitologia), Isaias Raw e Júlio Puddles (medicina- bioquímica), Michel Rabinovitch e Thomas Maack (medicina-Histologia), Pedro Henrique Saldanha (medicina-Genética humana), Abram B. Fajer (medicina-fisiologia), Roland Vera Saldanha, Reynaldo Chiaverini, José Barros Magaldi, Israel Nussenzveig, Antonio Branco Lefèvre e José Maria Taques Bittencourt (medicina-clinica), João Villanova Artigas (Arquitetura), Mário Wagner (Economia), Caio Prado Júnior (História), Clarismundo de Souza Filho (medicina Ribeirão Preto), Paulo Guimarães da Fonseca, (escola Politécnica) foi substituído por uma gestão onde a universidade passou a se curvar a insegurança, opressão e violência causadas pela tortura psicológica moderna – a terceirização e o conseqüente medo do desemprego .



Em dezembro de 68, no malfadado AI-5, novamente o exército e a polícia invadiram o campus para concluir a liquidação do pensamento docente e para massacrar o movimento estudantil que se revoltara contra o obscurantismo fardado que tomara o poder. Por dez anos permaneceram nas alamedas, nos corredores, nas diretorias, nos laboratórios e nas salas de aula prendendo, matando e oprimindo professores, estudantes e trabalhadores. Transitaram livremente, com poder de vida e de morte sobre os uspianos, toda uma caterva de sub humanos , que disseminaram terror principalmente na juventude buscando dela extirpar a justa rebeldia.





Agora, no milênio dois, volta a polícia ao campus para liquidar com a última força de resistência humana que ainda resta na USP: os trabalhadores organizados. A farsa diz que a universidade foi tomada pelos trabalhadores e que a polícia vem para devolve-la aos estudantes e professores. A verdade é que se trata do último capítulo da tragédia da destruição da USP, iniciada em 64 e que agora deve se encerrar com a sua tomada definitiva das mãos da população e sua entrega aos ratos que já roeram e consumiram grande parte da riqueza brasileira – a educação. E o que acontecerá se a sociedade, os professores, estudantes e funcionários - que desejam uma USP viva, humana, trabalhadora, popular, produtiva e criadora da civilização brasileira - e que são maioria, não se mobilizarem e se unirem para repelir este ataque final dos inimigos da humanidade?



TRABALHADORES, ESTUDANTES E PROFESSORES, POPULAÇÃO EM GERAL, UNAMO-NOS CONTRA O GOLPE DAQUELES QUE QUEREM O FIM DA NOSSA UNIVERSIDADE! TODOS PELA AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA! FORA POLÍCIA! FORA SERRA! FORA FASCISTAS! FORA CORRUPTOS! TODOS À ASSEMBLÉIA UNIVERSITÁRIA! PELA UNIÃO DE TODOS OS USPIANOS CONTRA A INTERVENÇÃO POLICIAL! QUE A USP RETORNE À CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA!



Nós, abaixo assinados, pedimos ao Ministério da Educação do Brasil que intervenha para garantir uma universidade pública, gratuita e de qualidade em respeito ao direito constitucional de acesso à educação Some a sua assinatura e lutemos por uma universidade democrática
Sincerely,
The Undersigned

domingo, 7 de junho de 2009

referências e atividades (disc. Metodologia Científica)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS – METODOLOGIA CIENTÍFICA.


ABREU, Antônio Suarez. A arte de argumentar – gerenciando razão e emoção. Cotia-SP: Ateliê, 2004
ANDERY. Maria Amália. Para compreender a ciência. São Paulo: EDUC, 2000.
APPOLINÁRIO, Fábio. Dicionário de metodologia científica – um guia para a produção do conhecimento científico. São Paulo: Atlas, 2005.
BAZARIAN, Jacob. O problema da verdade. São Paulo: Alfa-Ômega, 1994.
BOAVENTURA, Edivaldo. Como ordenar as idéias. São Paulo: Ática, 2007.
BOOTH, Wayne C. A arte da pesquisa. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
CARDOSO, Ary Carlos Moura Cardoso. Dos Racionalizadores. Palmas-TO: Jornal do Tocantins, p. 04, maio de 2009.
------------------------------------------------ Da textualidade. Palmas-TO: Jornal do Tocantins, p. 04, março de 2008
CARRAHER, David W. Senso crítico – do dia-a-dia às ciências humanas. São Paulo: Pioneira, 1989.
CHRÉTIEN, Claude. A ciência em ação. Campinas-SP: Papirus, 1984.
CASTRO, Cláudio de Moura. A prática da pesquisa. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2006.
CHALMERS, A. F. O que é ciência afinal? São Paulo: Brasiliense, 1995.
----------------------- A fabricação da ciência. São Paulo: Unesp, 1994.
CHAUÍ, Marilena. O que é ideologia. São Paulo: Brasiliense, 2008.
DEMO, PEDRO. Metodologia científica em ciências sociais. São Paulo: Atlas, 2009
-------------------- Introdução à metodologia da ciência. São Paulo: Atlas, 1987.
Filho, Eduardo Sucupira. Introdução ao pensamento dialético. São Paulo: Alfa-Ômega, 1984
GARCIA, Regina Leite (Org.). Método métodos contramétodo. São Paulo: Cortez, 2003
GARCIA, Othon M. Comunicação em prosa moderna. Rio de Janeiro: FGV, 2000.
GONÇALVES, Hortência de Abreu. Manual de metodologia da pesquisa científica. São Paulo: Avercamp, 2005.
------------------------------------------- Manual de artigos científicos. São Paulo: Avercamp, 2004.
------------------------------------------ Manual de projetos de pesquisa científica. São Paulo: Avercamp, 2007.
------------------------------------------ Manual de resumos e comunicações científicas. São Paulo: Avercamp, 2005.
GRANGER, Gilles-Gaston. A ciência e as ciências. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1994.
HESSEN, Johannes. Teoria do conhecimento. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
HÜNE, Leda Miranda (Orgenizadora). Metodologia científica – caderno de textos e técnicas. Rio de Janeiro, 2002.
JAPIASSU, Hilton. A crise da razão do saber objetivo – as ondas do irracional. São Paulo: Letras & Letras, 1996.
MAGALHÃES, Gildo. Introdução à metodologia da pesquisa – caminhos da ciência e tecnologia. São Paulo: Ática, 2006.
MAZZOTTI, Alda Judith Alves & GEWANDSZNAJDER, Fernando. O método nas ciências naturais e sociais – pesquisa quantitativa e qualitativa. São Paulo: Pioneira, 200.
MEYER, Bernard. A arte de argumentar. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
MINAYO, Maria Cecília de Souza (Organizadora). Pesquisa social – teoria, método e criatividade. Petrópolis-RJ: Vozes, 2007.
MOREIRA, Herivelto & CALEFFE, Luiz Gonzaga. Metodologia da pesquisa para o professor pesquisador. Rio de Janeiro: DP&A, 2008.
MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2008.
OLIVEIRA, Maria Marly de. Como fazer pesquisa qualitativa. Petrópolis: Vozes, 2008.
ORLANDI, Eni Puccinelli. As formas do silêncio – no movimento dos sentidos. Campinas-SP: Editora da Unicamp, 2002.
QUIVY, Raymond. Manual de investigação em ciências sociais. Gradiva, 1998.
------------------------------- Interpretação – autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. Petrópolis-RJ: Vozes, 1996.
RABUSKE, Edvino. Epistemologia das ciências humanas. EDUCS, 1987.
SANTOS, Antônio Raimundo dos. Metodologia científica- a construção do conhecimento. Rio de Janeiro: DP&A, 2007.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências. São Paulo: Cortez, 2008.
-------------------------------------- (Org.) Conhecimento prudente para uma vida decente – um discurso sobre as ciências revisitado. São Paulo: Cortez, 2006.
SENRA, Nelson de Castro. O cotidiano da pesquisa. São Paulo: Ática, 2000.
SOARES, Edvaldo. Metodologia científica – lógica, epistemologia e normas. São Paulo: Atlas, 2005.
TEIXEIRA, Elizabeth. As três metodologias – acadêmica, da ciência e da pesquisa. Petrópolis: Vozes, 2009
THIOLLENT, Michel. Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez, 2007.
TIVIÑOS, Augusto N. S. Introdução à pesquisa em ciências sociais – a pesquisa qualitativa em educação. São Paulo: Atlas, 2008.
VAL, Maria da Graça Costa, Redação e textualidade. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
VASCONCELLOS, Maria José Esteve de. Pensamento sistêmico – o novo paradigma da ciência.Campinas-SP: Papirus, 2202.


Obs. Todos os livros e textos foram apresentados pelo professor quando do primeiro encontro. Três deles estão sendo trabalhados em sala de aula.


O livro “Um Discurso Sobre As Ciências”, de Boaventura de Sousa Santos, deverá ser analisado (estudado) a fim de que seja produzida uma resenha sobre o mesmo. As orientações sobre este tipo de trabalho (resenha) se encontram num texto meu intitulado “Pistas de Como se Fazer Uma Resenha”, encontrado em:

http://recantodasletras.uol.com.br/autores/arycarlos (Clique na seção “Artigos”).


No próximo encontro, definiremos a data para entrega desta atividade avaliativa.



Prof. Ary Carlos Moura Cardoso

sábado, 6 de junho de 2009

Texto para Debate: A delinquencia Acadêmica

A Delinqüência Acadêmica
Maurício Tragtenberg


O tema é amplo: a relação entre a dominação e o saber, a relação entre o intelectual e a
universidade como instituição dominante ligada à dominação, a universidade antipovo.

A universidade está em crise. Isto ocorre porque a sociedade está em crise; através da
crise da universidade é que os jovens funcionam detectando as contradições profundas
do social, refletidas na universidade. A universidade não é algo tão essencial como a
linguagem; ela é simplesmente uma instituição dominante ligada à dominação. Não é uma
instituição neutra; é uma instituição de classe, onde as contradições de classe aparecem.

Para obscurecer esses fatores ela desenvolve uma ideologia do saber neutro, científico, a
neutralidade cultural e o mito de um saber “objetivo”, acima das contradições sociais.

No século passado, período do capitalismo liberal, ela procurava formar um tipo de
“homem” que se caracterizava por um comportamento autônomo, exigido por suas
funções sociais: era a universidade liberal humanista e mandarinesca. Hoje, ela forma a
mão-de-obra destinada a manter nas fábricas o despotismo do capital; nos institutos de
pesquisa, cria aqueles que deformam os dados econômicos em detrimento dos
assalariados; nas suas escolas de direito forma os aplicadores da legislação de exceção;
nas escolas de medicina, aqueles que irão convertê-la numa medicina do capital ou
utilizá-la repressivamente contra os deserdados do sistema.

Em suma, trata-se de “um complô de belas almas” recheadas de títulos acadêmicos, de um doutorismo substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um saber a serviço do poder, seja ele de que espécie for.

Na instância das faculdades de educação, forma-se o planejador tecnocrata a quem
importa discutir os meios sem discutir os fins da educação, confeccionar reformas
estruturais que na realidade são verdadeiras “restaurações”. Formando o professorpolicial,
aquele que supervaloriza o sistema de exames, a avaliação rígida do aluno, o
conformismo ante o saber professoral. A pretensa criação do conhecimento é substituída
pelo controle sobre o parco conhecimento produzido pelas nossas universidades, o
controle do meio transforma-se em fim, e o “campus” universitário cada vez mais parece
um universo concentracionário que reúne aqueles que se originam da classe alta e média,
enquanto professores, e os alunos da mesma extração social, como “herdeiros” potenciais
do poder através de um saber minguado, atestado por um diploma.

A universidade classista se mantém através do poder exercido pela seleção dos
estudantes e pelos mecanismos de nomeação de professores. Na universidade
mandarinal do século passado o professor cumpria a função de “cão de guarda” do
sistema: produtor e reprodutor da ideologia dominante, chefe de disciplina do estudante.
Cabia à sua função professoral, acima de tudo, inculcar as normas de passividade,
subserviência e docilidade, através da repressão pedagógica, formando a mão-de-obra
para um sistema fundado na desigualdade social, a qual acreditava legitimar-se através
da desigualdade de rendimento escolar; enfim, onde a escola “escolhia” pedagogicamente
os “escolhidos” socialmente.

A transformação do professor de “cão de guarda” em “cão pastor” acompanha a
passagem da universidade pretensamente humanista e mandarinesca à universidade
tecnocrática, onde os critérios lucrativos da empresa privada, funcionarão para a
formação das fornadas de “colarinhos brancos” rumo às usinas, escritórios e
dependências ministeriais. É o mito da assessoria, do posto público, que mobiliza o
diplomado universitário.

A universidade dominante reproduz-se mesmo através dos “cursos críticos”, em que o
juízo professoral aparece hegemônico ante os dominados: os estudantes. Isso se realiza
através de um processo que chamarei de “contaminação”. O curso catedrático e
dogmático transforma-se num curso magisterial e crítico; a crítica ideológica é feita nos
chamados “cursos críticos”, que desempenham a função de um tranqüilizante no meio
universitário. Essa apropriação da crítica pelo mandarinato universitário, mantido o
sistema de exames, a conformidade ao programa e o controle da docilidade do estudante
como alvos básicos, constitui-se numa farsa, numa fábrica de boa consciência e
delinqüência acadêmica, daqueles que trocam o poder da razão pela razão do poder. Por
isso é necessário realizar a crítica da crítica-crítica, destruir a apropriação da crítica pelo
mandarinato acadêmico. Watson demonstrou como, nas ciências humanas, as pesquisas
em química molecular estão impregnadas de ideologia. Não se trata de discutir a
apropriação burguesa do saber ou não-burguesa do saber, mas sim a destruição do
“saber institucionalizado”, do “saber burocratizado” como único “legítimo”. A apropriação
universitária (atual) do conhecimento é a concepção capitalista de saber, onde ele se
constitui em capital e toma a forma nos hábitos universitários.

A universidade reproduz o modo de produção capitalista dominante não apenas pela
ideologia que transmite, mas pelos servos que ela forma. Esse modo de produção
determina o tipo de formação através das transformações introduzidas na escola, que
coloca em relação mestres e estudantes. O mestre possui um saber inacabado e o aluno
uma ignorância transitória, não há saber absoluto nem ignorância absoluta. A relação de
saber não institui a diferença entre aluno e professor, a separação entre aluno e professor
opera-se através de uma relação de poder simbolizada pelo sistema de exames – “esse
batismo burocrático do saber”. O exame é a parte visível da seleção; a invisível é a
entrevista, que cumpre as mesmas funções de “exclusão” que possui a empresa em
relação ao futuro empregado. Informalmente, docilmente, ela “exclui” o candidato. Para o
professor, há o currículo visível, publicações, conferências, traduções e atividade didática,
e há o currículo invisível – esse de posse da chamada “informação” que possui espaço na
universidade, onde o destino está em aberto e tudo é possível acontecer. É através da
nomeação, da cooptação dos mais conformistas (nem sempre os mais produtivos) que a
burocracia universitária reproduz o canil de professores. Os valores de submissão e
conformismo, a cada instante exibidos pelos comportamentos dos professores, já
constituem um sistema ideológico. Mas, em que consiste a delinqüência acadêmica?

A “delinqüência acadêmica” aparece em nossa época longe de seguir os ditames de Kant:
“Ouse conhecer.” Se os estudantes procuram conhecer os espíritos audazes de nossa
época é fora da universidade que irão encontrá-los. A bem da verdade, raramente a
audácia caracterizou a profissão acadêmica. Os filósofos da revolução francesa se
autodenominavam de “intelectuais” e não de “acadêmicos”. Isso ocorria porque a
universidade mostrara-se hostil ao pensamento crítico avançado. Pela mesma razão, o
projeto de Jefferson para a Universidade de Virgínia, concebida para produção de um
pensamento independente da Igreja e do Estado (de caráter crítico), fora substituído por
uma “universidade que mascarava a usurpação e monopólio da riqueza, do poder”. Isso
levou os estudantes da época a realizarem programas extracurriculares, onde Emerson
fazia-se ouvir, já que o obscurantismo da época impedia a entrada nos prédios
universitários, pois contrariavam a Igreja, o Estado e as grandes “corporações”, a que
alguns intelectuais cooptados pretendem que tenham uma “alma”. [1]

Em nome do “atendimento à comunidade”, “serviço público”, a universidade tende cada
vez mais à adaptação indiscriminada a quaisquer pesquisas a serviço dos interesses
econômicos hegemônicos; nesse andar, a universidade brasileira oferecerá disciplinas
como as existentes na metrópole (EUA): cursos de escotismo, defesa contra incêndios,
economia doméstica e datilografia em nível de secretariado, pois já existe isso em
Cornell, Wisconson e outros estabelecimentos legitimados. O conflito entre o técnico e o
humanismo acaba em compromisso, a universidade brasileira se prepara para ser uma
“multiversidade”, isto é, ensina tudo aquilo que o aluno possa pagar. A universidade, vista
como prestadora de serviços, corre o risco de enquadrar-se numa “agência de poder”,
especialmente após 68, com a Operação Rondon e sua aparente democratização, só nas
vagas; funciona como tranqüilidade social. O assistencialismo universitário não resolve o
problema da maioria da população brasileira: o problema da terra.

A universidade brasileira, nos últimos 15 anos, preparou técnicos que funcionaram como
juízes e promotores, aplicando a Lei de Segurança Nacional, médicos que assinavam
atestados de óbito mentirosos, zelosos professores de Educação Moral e Cívica
garantindo a hegemonia da ideologia da “segurança nacional” codificada no Pentágono.
O problema significativo a ser colocado é o nível de responsabilidade social dos
professores e pesquisadores universitários. A não preocupação com as finalidades sociais
do conhecimento produzido se constitui em fator de “delinqüência acadêmica” ou da
“traição do intelectual”. Em nome do “serviço à comunidade”, a intelectualidade
universitária se tornou cúmplice do genocídio, espionagem, engano e todo tipo de
corrupção dominante, quando domina a “razão do Estado” em detrimento do povo. Isso
vale para aqueles que aperfeiçoam secretamente armas nucleares (M.I.T.), armas
químico-biológicas (Universidade da Califórnia, Berkeley), pensadores inseridos na Rand
Corporation, como aqueles que, na qualidade de intelectuais com diploma acreditativo,
funcionam na censura, na aplicação da computação com fins repressivos em nosso país.

Uma universidade que produz pesquisas ou cursos a quem é apto a pagá-los perde o
senso da discriminação ética e da finalidade social de sua produção – é uma
multiversidade que se vende no mercado ao primeiro comprador, sem averiguar o fim da
encomenda, isso coberto pela ideologia da neutralidade do conhecimento e seu produto.
Já na década de 30, Frederic Lilge [2] acusava a tradição universitária alemã da
neutralidade acadêmica de permitir aos universitários alemães a felicidade de um
emprego permanente, escondendo a si próprios a futilidade de suas vidas e seu trabalho.

Em nome da “segurança nacional”, o intelectual acadêmico despe-se de qualquer
responsabilidade social quanto ao seu papel profissional, a política de “panelas”
acadêmicas de corredor universitário e a publicação a qualquer preço de um texto
qualquer se constituem no metro para medir o sucesso universitário. Nesse universo não
cabe uma simples pergunta: o conhecimento a quem e para que serve? Enquanto este
encontro de educadores, sob o signo de Paulo Freire, enfatiza a responsabilidade social
do educador, da educação não confundida com inculcação, a maioria dos congressos
acadêmicos serve de “mercado humano”, onde entram em contato pessoas e cargos
acadêmicos a serem preenchidos, parecidos aos encontros entre gerentes de hotel, em
que se trocam informações sobre inovações técnicas, revê-se velhos amigos e se
estabelecem contatos comerciais.

Estritamente, o mundo da realidade concreta e sempre muito generoso com o acadêmico,
pois o título acadêmico torna-se o passaporte que permite o ingresso nos escalões
superiores da sociedade: a grande empresa, o grupo militar e a burocracia estatal. O
problema da responsabilidade social é escamoteado, a ideologia do acadêmico é não ter
nenhuma ideologia, faz fé de apolítico, isto é, serve à política do poder.

Diferentemente, constitui, um legado da filosofia racionalista do século XVIII, uma
característica do “verdadeiro” conhecimento o exercício da cidadania do soberano direito
de crítica questionando a autoridade, os privilégios e a tradição. O “serviço público”
prestado por estes filósofos não consistia na aceitação indiscriminada de qualquer projeto,
fosse destinado à melhora de colheitas, ao aperfeiçoamento do genocídio de grupos
indígenas a pretexto de “emancipação” ou política de arrocho salarial que converteram o
Brasil no detentor do triste “record” de primeiro país no mundo em acidentes de trabalho.
Eis que a propaganda pela segurança no trabalho emitida pelas agências oficiais não
substitui o aumento salarial.

O pensamento está fundamentalmente ligado à ação. Bergson sublinhava no início do
século a necessidade do homem agir como homem de pensamento e pensar como
homem de ação. A separação entre “fazer” e “pensar” se constitui numa das doenças que
caracterizam a delinqüência acadêmica – a análise e discussão dos problemas relevantes
do país constitui um ato político, constitui uma forma de ação, inerente à responsabilidade
social do intelectual. A valorização do que seja um homem culto está estritamente
vinculada ao seu valor na defesa de valores essenciais de cidadania, ao seu exemplo
revelado não pelo seu discurso, mas por sua existência, por sua ação.

Ao analisar a “crise de consciência” dos intelectuais norte-americanos que deram o aval
da “escalada” no Vietnã, Horowitz notara que a disposição que eles revelaram no
planejamento do genocídio estava vinculada à sua formação, à sua capacidade de discutir
meios sem nunca questionar os fins, a transformar os problemas políticos em problemas
técnicos, a desprezar a consulta política, preferindo as soluções de gabinete,
consumando o que definiríamos como a traição dos intelectuais. É aqui onde a
indignidade do intelectual substitui a dignidade da inteligência.

Nenhum preceito ético pode substituir a prática social, a prática pedagógica.
A delinqüência acadêmica se caracteriza pela existência de estruturas de ensino onde os
meios (técnicas) se tornam os fins, os fins formativos são esquecidos; a criação do
conhecimento e sua reprodução cede lugar ao controle burocrático de sua produção como
suprema virtude, onde “administrar” aparece como sinônimo de vigiar e punir – o
professor é controlado mediante os critérios visíveis e invisíveis de nomeação; o aluno,
mediante os critérios visíveis e invisíveis de exame. Isso resulta em escolas que se
constituem em depósitos de alunos, como diria Lima Barreto em “Cemitério de Vivos”.
A alternativa é a criação de canais de participação real de professores, estudantes e
funcionários no meio universitário, que oponham-se à esclerose burocrática da instituição.
A autogestão pedagógica teria o mérito de devolver à universidade um sentido de
existência, qual seja: a definição de um aprendizado fundado numa motivação
participativa e não no decorar determinados “clichês”, repetidos semestralmente nas
provas que nada provam, nos exames que nada examina, mesmo porque o aluno sai da
universidade com a sensação de estar mais velho, com um dado a mais: o diploma
acreditativo que em si perde valor na medida em que perde sua raridade.

A participação discente não constitui um remédio mágico aos males acima apontados,
porém a experiência demonstrou que a simples presença discente em colegiados é fator
de sua moralização.

____________
* Texto apresentado no I Seminário de Educação Brasileira, realizado em 1978, em Campinas-SP.
Publicado em: TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. Sã Paulo: Editores
Associados; Cortez, 1990, 2ª ed. (Coleção teoria e práticas sociais, vol 1)
[1] Kaysen pretende atribuir uma “alma”à corporação multinacional; esta parece não preocupar-se com
tal esforço construtivo do intelectual.
[2] Frederic LILGE, The Abuse of Learning: The Failure of German University. Macmillan, New York, 1948