Páginas Vinculadas

Página específica para a 3ª edição do curso de especialização em Gestão Pública e Sociedade:

sábado, 18 de setembro de 2010

Acumulação, trabalho e desigualdades sociais

Por Paulo Sergio Porto
especializando em Gestão Pública e Sociedade


A expropriação e a exploração têm suas raízes na escravidão não só de negros, mas de índios, e no feudalismo e que continua nos dias atuais em outra formas de subjugação do e no trabalho e do trabalhador bem como o aumento das desigualdades e as perdas dos seus direitos constituídos e inerentes ao homem.

A autora aclara, muito acertadamente, apoiada em Marx se opondo a Smith, que diz que na natureza não existe dominados e nem dominantes são criações do homem pelo homem. Como se o fato de comprar e vender explicasse a razão do capitalismo e suas contradições, e não existissem os meios, a força, os donos e os vendedores do trabalho. Mas a falácia disjuntiva permanece por que não se escolhe vender ou comprar pelo simples fato só de querer, por que para isso é necessário ter os meios para produzir ou o poder de compra, dito de outra forma, o capitalista se não tivesse a mais valia não teria como implementar os meios de produção e assim aumentar seu lucro e o excedente. Uma falácia para não compreensão da real intenção do capitalismo. Mas somente isso seria necessário para se ter a liberdade dos homens e o desenvolvimento da sociedade? Penso que não e a realidade confirma essa posição.

Segundo Tavares optou pelo pensamento marxista, pois ele “apreendeu as categorias da realidade, as quais permanecem atuais, na medida em que o fim capitalista continua sendo acumular... [e que estas foram usadas para] “compreender a sociedade capitalista do século XIX nos permitem, hoje, compreender as desigualdades sociais do século XXI” (p.4)

O comercio sempre existiu num processo simples de produção e troca de mercadorias do excedente da produção e da necessidade de outros produtos para complementação de suas necessidades seja de alimentos ou de objetos chamada de mercadoria, relação essa que não é capitalista, pois é a troca pela troca.

Já no sistema capitalista será extraído a mais valia o trabalho excedente não pago que será apropriado e que retornará em forma de matéria prima ou de maquinas para produção.

Esse nível de produção foi possível, com muito sangue, suor e luta, onde donos de pequenas propriedades foram expulsos de suas terras, o fim dos feudos e a dispensa dos servos que avolumam o numero de homens pobres que vendem sua força de trabalho.

A indústria deu lugar aos artesãos quebrando os ciclos de capital comercial, onde existia um atravessador que levava vantagem na comercialização das mercadorias e o capital usado que era o adiantamento dos meios para produção das mercadorias a juros altos, era a “transição para o capitalismo” (p.9).

O capitalismo só deslancha com a revolução industrial no século XVIII e com uma grande massa de trabalhadores assalariados, some-se a isso “a cooperação simples, a manufatura e a grande indústria” (p.10). O primeiro com o grande número de pessoas para produzir a mesma mercadoria, o segundo com a diversidade nos instrumentos adaptados as funções e a divisão do trabalho e terceiro a maquina que poderia substituir vários trabalhadores, a maquina não parava de funcionar e produzia com maior perfeição e em maior quantidade, esse é o tripé para a acumulação, a exploração e as mudanças nos negócios e na rentabilidade para o capitalista, onde o estado é o “comitê para os negócios da burguesia” (p.12), iniciando os cartéis, os monopólios e as sociedades anônimas. A autora profere

O capitalismo monopolista abrange o aumento de organizações monopolistas, a internacionalização do capital, a divisão internacional do trabalho, o imperialismo, o mercado mundial do capital, as mudanças na estrutura do poder estatal. Há uma reorganização da vida social, alterando papeis femininos e transferindo-se para o mercado quase todas as atividades tradicionalmente a cargo da família. Com isso, aumenta a necessidade de instituições, como escolas, hospitais, prisões, manicômios e, também, de assistência social” (p.13).

É nessa fase que surge o fordismo e o toyotismo baseados em ciência e tecnologia e gerência respectivamente. É a reorganização da indústria e de sua produção em todo o processo de trabalho e com vistas em outro processo que é a interferência na vida familiar do trabalhador é “um novo modo de viver, um novo tipo de trabalhador, ideologicamente submisso aos padrões de consumo, ás regras familiares e ao estado” (p.14).

Este sistema permaneceu até os anos de 1970 entrando em crise. Ficou a cargo do toyotismo sua expansão, agora separado do fordismo, e dos governos da Inglaterra e dos EUA a ajuda financeira para reestruturar e implementar a indústria, internacionalizando o capital na chamada “globalização da economia”(14), portanto tem-se ai o argumento para expandir essas industrias para os países mais pobres e periféricos sob o argumento do desenvolvimento, mas com intuito de acumulação com a mão de obra mais barata e ausência de direitos.

Dessa forma pode se produzir um produto com as peças feitas em vários países tendo um produto construído internacionalmente, não só isso mas a gestão e organização igual para todos, são os chamados métodos “kanban ou just-in-time”, onde a terceirização é a saída e pode se encontrar mais lucratividade, trabalho flexível, outras formas de trabalho, outros locais para sua realização “como a cooperativa, o trabalho domiciliar, a prestação de serviços, o trabalho parcial, temporário etc.”(p.17) .

TAVARES, Maria Augusta. Acumulação, trabalho e desigualdades sociais . In: Curso: Serviço social: Direitos Sociais e Competências Profissionais, Brasília: CFESS / ABEPSS / CEAD-UNB, 2009.

Falta de divulgação prejudica o resultado das eleições

Por Dilla Cardoso
especializanda em Gestão Pública e Sociedade

Falta de divulgação prejudica o resultado das eleições

O Tribunal Regional Eleitoral - TRE, órgão responsável pela fiscalização e punição das infrações feitas pelos políticos de todas as esferas, vem desenvolvendo um trabalho voltado à busca de meios que facilitem o acesso da população às atitudes de suas lideranças.

Entretanto, esse Órgão tem feito um trabalho limitado, no que tange a divulgação das fiscalizações e punições. Atualmente, para que um eleitor possa saber como está à situação de seu propenso candidato é preciso que entre no site do TRE para que nele veja as fichas cadastrais.

Porém, em se tratando de um país onde a maioria da população é de baixa renda, a utilização da internet torna-se limitada, pois nem todos têm sequer energia elétrica em seus lares. Diante disso, apenas alguns podem ter acesso ao currículo do candidato a que se pretende votar.

Esse tipo de situação é um fator limitador da expansão da comunicação entre os eleitores, e se formos colocar em base de pesquisa acaba sendo uma forma de distorção da opinião pública, uma vez que nem todos têm a oportunidade de saber se aquela pessoa que vem em sua casa pedir voto é realmente digna de merecê-lo.

Nesse sentido, popularizar esse tipo de informação com mecanismos mais acessíveis, como jornais, folhetos se torna indispensável no período eleitoral, e talvez seja uma saída para conceber a participação política de forma a potencializar o voto consciente de cada cidadão.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

PLANEJAMENTO TURÍSTICO DE PALMAS - TOCANTINS: UMA GESTÃO PARTICIPATIVA OU AUTORITÁRIA

Apesar de ser a capital do Estado e uma cidade de inquestionável vocação turística, Palmas sempre esteve abaixo do seu desempenho potencial, sem força como destino final, se comparada a outros municípios do interior do Tocantins, como Caseara, Araguacema, Pedro Afonso, entre outros.
A falta de um planejamento estratégico público pode-se constatar ao longo do ano, dado a inexistência de uma programação voltada à atração de turistas. Os que aqui chegam vêm em virtude dos atrativos que a cidade por si só esbanja, principalmente praia e sol, não em função de políticas públicas estrategicamente implantadas para atrair e reter os turistas na cidade. Muitos destes, apenas por aqui passam, seguindo em direção aos destinos acima mencionados. Em Palmas, até existem ações tático-operacionais para o turismo, mas quando o assunto é um planejamento estratégico que traga resultados reais e duradouros, conforme se vê em cidades de outros Estados, como Porto Seguro e Itacaré, aí a terra com belíssimas praias, cachoeiras e várias atrações deixa a desejar.

Uma cidade, um país ou mesmo uma pessoa, na construção do seu futuro, necessita de um planejamento estratégico, por conceito, que deve servir como um guia para orientar as ações e decisões a serem tomadas. Palmas não é diferente, ou seja, precisa de um plano turístico que dialogue com as pessoas e organizações, não existindo uma figura central no processo decisório, e sim diversas partes igualmente significantes.
O processo de planejamento estratégico do turismo de Palmas carece então ter uma abordagem participativa, isto é, envolver o maior número de agentes, pessoas e organizações, no processo e na tomada de decisão. O planejamento participativo permite que todas as partes envolvidas defendam os seus interesses ao mesmo tempo em que se desenvolvem uma visão única sobre o destino, através do compartilhamento de experiências e conhecimento sobre o local. Compartilhar uma visão comum de futuro para o destino é somente uma das vantagens de uma abordagem participativa no planejamento. Este procedimento traz benefícios tanto à comunidade e aos agentes locais quanto à equipe de planejamento e ao destino como um todo.
A participação do indivíduo independente no planejamento turístico é de suma importância, pois contribui sobremaneira para que os objetivos sejam alcançados, sendo, também, fundamental, para a eficácia do planejamento, identificar as necessidades da comunidade local. A satisfação da comunidade é a peça-chave para o desenvolvimento turístico de uma cidade.


Será que em Palmas as políticas para o turismo permitem que a população tome parte ou têm-se assistido ao desenrolar de um “planejamento” turístico autoritário e, por conseguinte, sem resultados?


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Reflexo do Trânsito na Sociedade

Por Rosângela Pinto Moreira Amorim
Especializanda em Gestão Pública e Sociedade


O trânsito é um indicador perfeito para mensurar como anda a sociedade brasileira. Reflete a violência, o desrespeito à legislação, a desvalorização do próximo, o egoísmo e o famoso “jeitinho brasileiro”.

Nada poderia demonstrar com mais exatidão quais são os defeitos principais dessa sociedade. Trânsito em condições seguras, é um direito de todos e dever dos órgãos e entidades do Sistema Nacional de Trânsito, cabendo-lhes adotar medidas destinadas a assegurar esse direito a todos.

A cada ano, os números relativos a mortes em incidentes de trânsito tornam-se mais assustadores. Cerca de 500 mil mortos por ano é mais que qualquer guerra atualmente em disputa no mundo. Por outro lado, ações para melhoria do trânsito devem ser desenvolvidas através do trinônimo: Fiscalização, engenharia de tráfego e educação, ressaltando, porém que apenas campanhas de conscientização não vão diminuir as mortes no trânsito.

Segundo o Professor Paulo Afonso Caruso Ronca, hábitos de respeitar as regras de trânsito, não nascem por decretos, por simples leis ou por pesadas multas. Emergem da consciência pessoal e coletiva, de personalidades bem formadas, da responsabilidade das ações do Estado, dos meios de comunicação e de ações da comunidade.

A sociedade utilizando-se do “jeitinho brasileiro” arruma soluções para tudo, onde não há lugar para estacionar, o brasileiro criativo estaciona em local proibido; sempre com pressa, e diante do sinal fechado, imagina que o vermelho significa “siga em frente”, sem se preocupar com as conseqüências daquele ato, muitas vezes provando tragédias meio ao “pequeno” desrespeito a legislação do trânsito.

Pessoas morrem todos os dias vitimas ou autores do descumprimento das leis e sinalizações nas cidades brasileiras. Somos reféns de motoristas imprudentes e muitas vezes embriagados, levando-nos a acreditar que não basta apenas uma boa sinalização e regras claras de trânsito, é preciso investir mais na educação.

As principais causas desse trânsito caótico são atribuídas ao despreparo de muitos motoristas, a falta de educação de outros, ao pouco efetivo policial para punir infratores, a escassez de campanhas educativas contínuas, a precariedade de algumas vias entre outros.

Porém é oportuno frisar, que o principal erro da sociedade está em acreditar que uma lei é facultativa quando não há alguém próximo para fiscalizar seu cumprimento. Sempre que não houver um agente da lei por perto, haverá a tendência de que absurdos ocorram, pois o respeito ao próximo é substituído pelo temor à multa.

A solução não é fácil e, nem imediata, porém você, está sendo convidado a participar dessa mudança, como multiplicador da idéia de um trânsito seguro , seja sempre um defensor da legislação, com respeito às regras, às leis específicas e a boa convivência social, afinal a vida humana é uma preciosidade única.


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

CIDADE SAUDÁVEL: ALGUMAS CONCEITUAÇÕES

Por Cibele Bonatto
especializanda em Gestão Pública e Sociedade


Em resposta às diversas mudanças ocasionada pela globalização, pela aceleração da urbanização e pelos arranjos políticos e institucionais, como as autoras Westphal e Mendes (2000) colocam, surge o projeto de cidades saudáveis. Do qual seu objetivo é ir além das praticas de saúde médica curativa e buscar a globalidade de fatores que determinam a saúde, exigindo um tratamento integrado e sistêmico das questões.

Este movimente de cidades saudáveis faz parte de um conjunto de políticas urbanas difundidas e implantadas pela ONU juntamente com diversas outras organizações que buscam intervenções diretas, influenciando políticos e planejadores locais, como também de levar em conta o desenvolvimento humano sustentável, a integração social e a governabilidade.

Duhl (apud WESTPHAL e MENDES, 2000) aponta condições essenciais para que sejam estabelecidas as definições de uma cidade saudável. A primeira condição é que a cidade dê respostas efetivas para as necessidades de desenvolvimento, para as organizações e para as pessoas; a segunda é que a cidade tenha capacidade para lidar com as crises do sistema e de seus membros; a terceira é que a cidade tenha habilidade para modificar-se e atender às exigências emergentes; e a quarta condição é que se deve capacitar sua população para usufruir as vantagens do desenvolvimento para seu bem-estar, o que remete a consideração de que um processo educativo e de mobilização sejam componentes importantes no movimento por cidade saudáveis. É importante enfatizar também que a interação, o relacionamento entre as partes e o senso comum de toda a comunidade que são essenciais para fazer uma cidade saudável.

Assim, a proposta de cidade saudável deve ser definida como uma política de governo, na qual deve se envolver o governo com um todo. Fazendo com que avance e trabalhe a relação e inter-relaçao da saúde com a educação, a habitação, o saneamento, o transporte e o lazer, por meio de políticas integradas. Dessa forma, é necessário ter uma visão e ação mais globalizada, estabelecer um sentido de unidade na diversidade, bem como de compreender esta complexidade da realidade, assim, a interdisciplinaridade busca fazer essa ligação com o coletivo e o todo, tornado-se um dos fundamentos do ideário das cidades saudáveis. E é através dessa multiplicidade de olhares que irá se trabalhar as relações de reciprocidade e de cooperação entre os papeis sociais das cidades (WESTPHAL e MENDES, 2000).

As autoras colocam também que além de se ter essa interdisciplinaridade com a sociedade, é necessário ter a intersetorialidade. Esta que é a articulação entre o planejamento geral, a realização e a avaliação das ações das políticas publicas, com o intuito de alcançar resultados integrados e sinérgicos no desenvolvimento social. E isso se dá por meio de uma exigência de compromisso das autoridades governamentais com o desenvolvimento de políticas publicas saudáveis que garantem a melhoria da qualidade de vida da população.

Assim, os dez requisitos definidos para Organização Mundial da Saúde (OMS) para uma cidade saudável seriam: ambiente físico limpo e seguro; ecossistema estável e sustentável; alto suporte social, sem exploração; alto grau de participação social; necessidades básicas satisfeitas; acesso a experiências, recursos, contatos, interações e comunicações; economia local diversificada e inovativa; orgulho e respeito pela herança biológica e cultural; serviços de saúde acessível a todos; e alto nível de saúde.

Riani (1997) comenta que a cidade é uma forma de expressão da sociedade, assim, a cidade só será saudável quando sua sociedade se tornar saudável, quando se organizar de forma diferente da forma que é posto atualmente, modificando a relação de nossa forma de vida, nosso valores, bem como mudar as bases do sistema produtivo da sociedade, ou seja, reorganização da vida na cidade. Dessa forma, diante de nosso situação social, política, educacional, vale a reflexão: será que isso é utópico, ou ainda há possibilidades?



Referência Bibliográfica

RIANI COSTA, J. L. Algumas reflexões sobre cidade saudável. Saúde e Sociedade: 6 (2): p. 65-70, 1997. Disponível em:< www.scielo.br>. Acessado em: 04 de set. de 2010.

WESTPHAL, M. F. MENDES, R. Cidade Saudável: uma experiência de Interdisciplinaridade e intersetorialidade. Revista de Administração Pública: 34 (6), p. 47-61, nov.-dez. 2000. Rio de Janeiro. Disponível em: <www.ebape.fgv.br>. Acessado em: 04 de set. de 2010.



sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Albert Einstein explica: Porquê o Socialismo?


Porquê o Socialismo?


por Albert Einstein


Será aconselhável para quem não é especialista em assuntos económicos e sociais exprimir opiniões sobre a questão do socialismo? Eu penso que sim, por uma série de razões.

Consideremos antes de mais a questão sob o ponto de vista do conhecimento científico. Poderá parecer que não há diferenças metodológicas essenciais entre a astronomia e a economia: os cientistas em ambos os campos tentam descobrir leis de aceitação geral para um grupo circunscrito de fenómenos de forma a tornar a interligação destes fenómenos tão claramente compreensível quanto possível. Mas, na realidade, estas diferenças metodológicas existem. A descoberta de leis gerais no campo da economia torna-se difícil pela circunstância de que os fenómenos económicos observados são frequentemente afectados por muitos factores que são muito difíceis de avaliar separadamente. Além disso, a experiência acumulada desde o início do chamado período civilizado da história humana tem sido – como é bem conhecido – largamente influenciada e limitada por causas que não são, de forma alguma, exclusivamente económicas por natureza. Por exemplo, a maior parte dos principais estados da história ficou a dever a sua existência à conquista. Os povos conquistadores estabeleceram-se, legal e economicamente, como a classe privilegiada do país conquistado. Monopolizaram as terras e nomearam um clero de entre as suas próprias fileiras. Os sacerdotes, que controlavam a educação, tornaram a divisão de classes da sociedade numa instituição permanente e criaram um sistema de valores segundo o qual as pessoas se têm guiado desde então, até grande medida de forma inconsciente, no seu comportamento social.

Mas a tradição histórica é, por assim dizer, coisa do passado; em lado nenhum ultrapassámos de facto o que Thorstein Veblen chamou de “fase predatória” do desenvolvimento humano. Os factos económicos observáveis pertencem a essa fase e mesmo as leis que podemos deduzir a partir deles não são aplicáveis a outras fases. Uma vez que o verdadeiro objectivo do socialismo é precisamente ultrapassar e ir além da fase predatória do desenvolvimento humano, a ciência económica no seu actual estado não consegue dar grandes esclarecimentos sobre a sociedade socialista do futuro.

Segundo, o socialismo é dirigido para um fim sócio-ético. A ciência, contudo, não pode criar fins e, muito menos, incuti-los nos seres humanos; quando muito, a ciência pode fornecer os meios para atingir determinados fins. Mas os próprios fins são concebidos por personalidades com ideais éticos elevados e – se estes ideais não nascerem já votados ao insucesso, mas forem vitais e vigorosos – adoptados e transportados por aqueles muitos seres humanos que, semi-inconscientemente, determinam a evolução lenta da sociedade.

Por estas razões, devemos precaver-nos para não sobrestimarmos a ciência e os métodos científicos quando se trata de problemas humanos; e não devemos assumir que os peritos são os únicos que têm o direito a expressarem-se sobre questões que afectam a organização da sociedade.

Inúmeras vozes afirmam desde há algum tempo que a sociedade humana está a passar por uma crise, que a sua estabilidade foi gravemente abalada. É característico desta situação que os indivíduos se sintam indiferentes ou mesmo hostis em relação ao grupo, pequeno ou grande, a que pertencem. Para ilustrar o meu pensamento, permitam-me que exponha aqui uma experiência pessoal. Falei recentemente com um homem inteligente e cordial sobre a ameaça de outra guerra, que, na minha opinião, colocaria em sério risco a existência da humanidade, e comentei que só uma organização supra-nacional ofereceria protecção contra esse perigo. Imediatamente o meu visitante, muito calma e friamente, disse-me: “Porque se opõe tão profundamente ao desaparecimento da raça humana?”

Tenho a certeza de que há tão pouco tempo como um século atrás ninguém teria feito uma afirmação deste tipo de forma tão leve. É a afirmação de um homem que tentou em vão atingir um equilíbrio interior e que perdeu mais ou menos a esperança de ser bem sucedido. É a expressão de uma solidão e isolamento dolorosos de que sofre tanta gente hoje em dia. Qual é a causa? Haverá uma saída?

É fácil levantar estas questões, mas é difícil responder-lhes com um certo grau de segurança. No entanto, devo tentar o melhor que posso, embora esteja consciente do facto de que os nossos sentimentos e esforços são muitas vezes contraditórios e obscuros e que não podem ser expressos em fórmulas fáceis e simples.

O homem é, simultaneamente, um ser solitário e um ser social. Enquanto ser solitário, tenta proteger a sua própria existência e a daqueles que lhe são próximos, satisfazer os seus desejos pessoais, e desenvolver as suas capacidades inatas. Enquanto ser social, procura ganhar o reconhecimento e afeição dos seus semelhantess, partilhar os seus prazeres, confortá-los nas suas tristezas e melhorar as suas condições de vida. Apenas a existência destes esforços diversos e frequentemente conflituosos respondem pelo carácter especial de um ser humano, e a sua combinação específica determina até que ponto um indivíduo pode atingir um equilíbrio interior e pode contribuir para o bem-estar da sociedade. É perfeitamente possível que a força relativa destes dois impulsos seja, no essencial, fixada por herança. Mas a personalidae que finalmente emerge é largamente formada pelo ambinte em que um indivíduo acaba por se descobrir a si próprio durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que cresce, pela tradição dessa sociedade, e pelo apreço por determinados tipos de comportamento. O conceito abstracto de “sociedade” significa para o ser humano individual o conjunto das suas relações directas e indirectas com os seus contemporâneos e com todas as pessoas de gerações anteriores. O indíviduo é capaz de pensar, sentir, lutar e trabalhar sozinho, mas depende tanto da sociedade – na sua existência física, intelectual e emocional – que é impossível pensar nele, ou compreendê-lo, fora da estrutura da sociedade. É a “sociedade” que lhe fornece comida, roupa, casa, instrumentos de trabalho, língua, formas de pensamento, e a maior parte do conteúdo do pensamento; a sua vida foi tornada possível através do trabalho e da concretização dos muitos milhões passados e presentes que estão todos escondidos atrás da pequena palavra “sociedade”.

É evidente, portanto, que a dependência do indivíduo em relação à sociedade é um facto da natureza que não pode ser abolido – tal como no caso das formigas e das abelhas. No entanto, enquanto todo o processo de vida das formigas e abelhas é reduzido ao mais pequeno pormenor por instintos hereditários rígidos, o padrão social e as interrelações dos seres humanos são muito variáveis e susceptíveis de mudança. A memória, a capacidade de fazer novas combinações, o dom da comunicação oral tornaram possíveis os desenvolvimentos entre os seres humanos que não são ditados por necessidades biológicas. Estes desenvolvimentos manifestam-se nas tradições, instituições e organizações; na literatura; nas obras científicas e de engenharia; nas obras de arte. Isto explica a forma como, num determinado sentido, o homem pode influenciar a sua vida através da sua própria conduta, e como neste processo o pensamento e a vontade conscientes podem desempenhar um papel.

O homem adquire à nascença, através da hereditariedade, uma constituição biológica que devemos considerar fixa ou inalterável, incluindo os desejos naturais que são característicos da espécie humana. Além disso, durante a sua vida, adquire uma constituição cultural que adopta da sociedade através da comunicação e através de muitos outros tipos de influências. É esta constituição cultural que, com a passagem do tempo, está sujeita à mudança e que determina, em larga medida, a relação entre o indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna ensina-nos, através da investigação comparativa das chamadas culturas primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode divergir grandemente, dependendo dos padrões culturais dominantes e dos tipos de organização que predominam na sociedade. É nisto que aqueles que lutam por melhorar a sorte do homem podem fundamentar as suas esperanças: os seres humanos não estão condenados, devido à sua constituição biológica, a exterminarem-se uns aos outros ou a ficarem à mercê de um destino cruel e auto-infligido.

Se nos interrogarmos sobre como deveria mudar a estrutura da sociedade e a atitude cultural do homem para tornar a vida humana o mais satisfatória possível, devemos estar permanentemente conscientes do facto de que há determinadas condições que não podemos alterar. Como mencionado anteriormente, a natureza biológica do homem, para todos os objectivos práticos, não está sujeita à mudança. Além disso, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos séculos criaram condições que vieram para ficar. Em populações com fixação relativamente densa e com bens indispensáveis à sua existência continuada, é absolutamente necessário haver uma extrema divisão do trabalho e um aparelho produtivo altamente centralizado. Já lá vai o tempo – que, olhando para trás, parece ser idílico – em que os indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente auto-suficientes. É apenas um pequeno exagero dizer-se que a humanidade constitui, mesmo actualmente, uma comunidade planetária de produção e consumo.

Cheguei agora ao ponto em que vou indicar sucintamente o que para mim constitui a essência da crise do nosso tempo. Diz respeito à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua dependência relativamente à sociedade. Mas ele não sente esta dependência como um bem positivo, como um laço orgânico, como uma força protectora, mas mesmo como uma ameaça aos seus direitos naturais, ou ainda à sua existência económica. Além disso, a sua posição na sociedade é tal que os impulsos egotistas da sua composição estão constantemente a ser acentuados, enquanto os seus impulsos sociais, que são por natureza mais fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, seja qual for a sua posição na sociedade, sofrem este processo de deterioração. Inconscientemente prisioneiros do seu próprio egotismo, sentem-se inseguros, sós, e privados do gozo naïve, simples e não sofisticado da vida. O homem pode encontrar sentido na vida, curta e perigosa como é, apenas dedicando-se à sociedade.

A anarquia económica da sociedade capitalista como existe actualmente é, na minha opinião, a verdadeira origem do mal. Vemos perante nós uma enorme comunidade de produtores cujos membros lutam incessantemente para despojar os outros dos frutos do seu trabalho colectivo – não pela força, mas, em geral, em conformidade com as regras legalmente estabelecidas. A este respeito, é importante compreender que os meios de produção – ou seja, toda a capacidade produtiva que é necessária para produzir bens de consumo bem como bens de equipamento adicionais – podem ser legalmente, e na sua maior parte são, propriedade privada de indivíduos.

Para simplificar, no debate que se segue, chamo “trabalhadores” a todos aqueles que não partilham a posse dos meios de produção – embora isto não corresponda exactamente à utilização habitual do termo. O detentor dos meios de produção está em posição de comprar a mão-de-obra. Ao utilizar os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que se tornam propriedade do capitalista. A questão essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e o que recebe, ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que o contrato de trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe é determinado não pelo valor real dos bens que produz, mas pelas suas necessidades mínimas e pelas exigências dos capitalistas para a mão-de-obra em relação ao número de trabalhadores que concorrem aos empregos. É importante compreender que, mesmo em teoria, o pagamento do trabalhador não é determinado pelo valor do seu produto.

O capital privado tende a concentrar-se em poucas mãos, em parte por causa da concorrência entre os capitalistas e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho encorajam a formação de unidades de produção maiores à custa de outras mais pequenas. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia de capital privado cujo enorme poder não pode ser eficazmente controlado mesmo por uma sociedade política democraticamente organizada. Isto é verdade, uma vez que os membros dos órgãos legislativos são escolhidos pelos partidos políticos, largamente financiados ou influenciados pelos capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o eleitorado da legislatura. A consequência é que os representantes do povo não protegem suficientemente os interesses das secções sub-privilegidas da população. Além disso, nas condições existentes, os capitalistas privados controlam inevitavelmente, directa ou indirectamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). É assim extremamente difícil e mesmo, na maior parte dos casos, completamente impossível, para o cidadão individual, chegar a conclusões objectivas e utilizar inteligentemente os seus direitos políticos.

Assim, a situação predominante numa economia baseada na propriedade privada do capital caracteriza-se por dois principais princípios: primeiro, os meios de produção (capital) são privados e os detentores utilizam-nos como acham adequado; segundo, o contrato de trabalho é livre. Claro que não há tal coisa como uma sociedade capitalista pura neste sentido. É de notar, em particular, que os trabalhadores, através de longas e duras lutas políticas, conseguiram garantir uma forma algo melhorada do “contrato de trabalho livre” para determinadas categorias de trabalhadores. Mas tomada no seu conjunto, a economia actual não difere muito do capitalismo “puro”.

A produção é feita para o lucro e não para o uso. Não há nenhuma disposição em que todos os que possam e queiram trabalhar estejam sempre em posição de encontrar emprego; existe quase sempre um “exército de desempregados. O trabalhador está constantemente com medo de perder o seu emprego. Uma vez que os desempregados e os trabalhadores mal pagos não fornecem um mercado rentável, a produção de bens de consumo é restrita e tem como consequência a miséria. O progresso tecnológico resulta frequentemente em mais desemprego e não no alívio do fardo da carga de trabalho para todos. O motivo lucro, em conjunto com a concorrência entre capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital que conduz a depressões cada vez mais graves. A concorrência sem limites conduz a um enorme desperdício do trabalho e a esse enfraquecimento consciência social dos indivíduos que mencionei anteriormente.

Considero este enfraquecimento dos indivíduos como o pior mal do capitalismo. Todo o nosso sistema educativo sofre deste mal. É incutida uma atitude exageradamente competitiva no aluno, que é formado para venerar o sucesso de aquisição como preparação para a sua futura carreira.

Estou convencido que só há uma forma de eliminar estes sérios males, nomeadamente através da constituição de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educativo orientado para objectivos sociais. Nesta economia, os meios de produção são detidos pela própria sociedade e são utilizados de forma planeada. Uma economia planeada, que adeque a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre aqueles que podem trabalhar e garantiria o sustento a todos os homens, mulheres e crianças. A educação do indivíduo, além de promover as suas próprias capacidades inatas, tentaria desenvolver nele um sentido de responsabilidade pelo seu semelhante em vez da glorificação do poder e do sucesso na nossa actual sociedade.

No entanto, é necessário lembrar que uma economia planeada não é ainda o socialismo. Uma tal economia planeada pode ser acompanhada pela completa opressão do indivíduo. A concretização do socialismo exige a solução de problemas socio-políticos extremamente difíceis; como é possível, perante a centralização de longo alcance do poder económico e político, evitar a burocracia de se tornar toda-poderosa e vangloriosa? Como podem ser protegidos os direitos do indivíduo e com isso assegurar-se um contrapeso democrático ao poder da burocracia?

A clareza sobre os objectivos e problemas do socialismo é da maior importância na nossa época de transição. Visto que, nas actuais circunstâncias, a discussão livre e sem entraves destes problemas surge sob um tabu poderoso, considero a fundação desta revista como um serviço público importante.

- x -


Einstein escreveu este trabalho especialmente para o lançamento da Monthly Review , cujo primeiro número foi publicado em Maio de 1949. Tradução de Anabela Magalhães.

O original deste artigo encontra-se em http://www.monthlyreview.org/598einst.htm .

Este artigo encontra-se em http://resistir.info